18 de abril de 2019

Fontes de Pesquisa: Açorianos no RS



Fontes de Pesquisa: Manuscritos Genealógicos Açorianos


Fénix Angrense

Genealogias Coelho Borges (Terceira)

Genealogias Carlos Machado (S. Miguel)

Genealogias da Graciosa

Genealogias de São Jorge (Silveira Avelar)

Genealogias de São Jorge (Fagundes de Azevedo)

Fonte de Pesquisa: Archivo dos Açores

Fonte de Pesquisa: Bibliotheca Açoriana

16 de abril de 2019

Fazendas Povoadas de Gado no Rio Grande do Sul - 1741

          Mapa das Fazendas Povoadas de gados, no Rio Grande de São Pedro, 13 de Abril de 1741
          O mapa abaixo é um raro documento que demonstra a importância do tema na época, pois foi elaborado com detalhes em ouro para ser encaminhado ao Rei de Portugal, durante a administração do Cel. Diogo Osório Cardoso, na vila de Rio Grande - RS. O documento foi o primeiro, que se tem conhecimento, elaborado apenas 4 anos após a fundação da vila de Rio Grande de São Pedro em 1737.



O INÍCIO DO POVOAMENTO DE GADO NO RIO GRANDE DO SUL

          Em 1533, Martin Afonso de Sousa desembarcou as primeiras cabeças de gado no Brasil. Em 1541, o adelantado espanhol Alvear Nuñes Cabeça de Vaca desembarcou em São Vicente bovinos 'Cuernos Largos'. 
          Em 1555, os irmãos Góis e o vaqueano "Gaete" levaram as primeiras sete vacas e um touro para Assunção-Paraguai. Posteriormente, o governador espanhol Hernando Arias de Saavedra introduziu o gado na Bacia do Prata. O padre Roque Gonzales de Santa Cruz, fundador das primeiras 'Missões', é considerado o primeiro tropeiro rio-grandense porque em 1626 introduziu o gado no Rio Grande do Sul. Parte deste gado, levado pelos índios Tapes em picadas abertas nos matos Castellhano e Português, iniciou a 'Vacaria dos Pinhais' e espalhou-se pelos campos de Cima da Serra. 
          Em 127 anos de presença no solo missioneiro, os jesuítas e guaranis construíram sete grandes povoados e instalaram 11 fazendas de gado e 4 grandes hervais. 
          Em 1640,com a expulsão dos jesuítas do Brasil, o gado de arribada cresceu livremente durante mais de meio século e propagou-se em praticamente todo o território do Rio Grande do Sul. 
          Em 1705, Silvestre Gonzáles descreve que cerca de 400.000 cabeças de gado xucro foram conduzidas, por cerca de 1.000 índios montados, da Vacaria para as Missões num percurso de cerca de 1.300 km.
          Logo em seguida à fundação da Colônia do Sacramento em 1º de janeiro de 1680 e de Laguna em 1684, iniciou-se o reconhecimento do território do Rio Grande e em 1703 já existia um roteiro completo, incluindo os caminhos do litoral e a descrição e duração das diversas etapas de cada percurso. A importância que assumia a região foi mostrada por Rodrigo César de Menezes, governador da Capitania de São Paulo, quando em 3 de outubro de 1722 enviou carta ao Rei de Portugal: "Não deve V. Majestade dilatar a resolução de mandar povoar toda aquela Fronteira, de cuja capacidade pela abundancia e fartura se pode fazer uma das maiores povoações da América". Os lagunistas tropeavam grandes rebanhos de gado selvagem existente na região da 'Vacaria do Mar' até o canal do Rio Grande e foram estabelecendo por volta de 1723 as primeiras invernadas ao longo da faixa litorânea, entre a atual São José do Norte até as proximidades de Torres, como consequência do comércio deste gado com o centro do país. 
          Em 1725, o capitão-mor Brito Peixoto envia de Laguna seu genro João de Magalhães em missão militar com 30 homens, na maioria escravos pardos, para estabelecer-se na margem norte da barra do Rio Grande e impedir que os espanhóis e os índios ali se fixassem, garantindo a passagem das tropas provenientes do sul. 
          Em 1726, Francisco de Brito Peixoto escreveu para o Rei: "Mandei no serviço de S.M. que Deus Guarde, para o Rio Grande de São Pedro 31 homens à minha custa, e por capitão deles o meu genro João de Magalhães, a quem ordenei que chegando à paragem do Rio Grande escolhessem algum lugar que fosse mais conveniente para formarem as suas casas em forma de povoação e logo façam canoas de pau, suficientes para serventia de passagens de gado, encomendando-lhes também aquele zelo e diligência de passarem gado para esta parte da nossa campanha para a multiplicação, pois é um grande serviço que se faz a EI-Rei Nosso Senhor, enxotando-o para o meio da campanha para o dito gado tomar posse (...) Também se me oferece dizer a Vmc. que já desta banda do Rio Grande se acham 800 rezes de gado vacum que mandei buscar das campanhas à minha custa (...) por entender que nisso fazia serviço a S.M. que Deus Guarde, para a multiplicação na campanha desta parte, e por não haver nela gado algum e ter capacidade para nela estarem milhões de gado, e na diligência de conduzir mais estou sempre (...) Também digo a Vme. que tenho adquirido a boa amizade dos índios minuanos (...) e ser conveniente ao real serviço a amizade destes gentios, por estarem as campanhas francas para delas se tirar quanto gado quiserem.

          "A 'Tropa de João de Magalhães', como ficou conhecida, também tinha por finalidade preparar uma povoação à beira do canal do Rio Grande. Entretanto isto não ocorreu e os componentes da expedição voltaram para Laguna em 1727, onde João de Magalhães se encontrava ainda em 1733 como oficial da Câmara. Sobre a impossibilidade de povoar o Rio Grande, assim se expressou a Câmara de Laguna, em Ata de 10 de novembro de 1726: "
          Não há quem queira ir para o dito Rio Grande, nem pessoas com posses que possamos nomear para principiar a povoação nela, porque todos os moradores são muito pobres e vivem miseravelmente de suas pescarias em ranchos de palha, e o Rio Grande de São Pedro se não pode povoar sem S. M. mandar casaes, e mandarem-lhes assistir o primeiro ano com sustento por conta da sua real Fazenda, e também mandar oficiaes de pedreiros, telheiros, carpinteiros e ferreiros erigirem a dita povoação e forma de defensa para ela, para que os castelhanos e gentios que há naquelas partes não venham invadi-los e os matem, como costumam fazer aos que encontram na campanha.
          "O sargento-mor Francisco de Souza e Faria dá início em 11 de dezembro de 1728, no sítio denominado 'Morro dos Conventos' próximo à barra do Rio Araranguá, ao primeiro rasgão na mata chegando no ano seguinte ao topo dos Aparados da Serra, onde encontrou pastagens admiráveis e uma imensidade de cabeças de gado oriundo das campanhas da Colônia, lançado naquelas paragens em 1712 pelos índios Tapes remanescentes das aldeias jesuíticas. 
          Entre os anos de 1728 e 1732, o coronel Cristóvão Pereira de Abreu dá abertura à estrada que ficou conhecida como o 'Caminho das Tropas', partindo dos Conventos, na foz do rio Araranguá, seguindo pelo vale deste rio em direção ao planalto e daí para Curitiba e São Paulo, para facilitar o trânsito de tropas desde o Rio da Prata até Minas Gerais. 
          O 'Caminho das Tropas' transformou-se na via do progresso da época, mas determinou o isolamento de Laguna deslocando-a da rota dos centros comerciais. Seus líderes e moradores, que a princípio movimentaram-se contra a construção desta estrada, decidiram migrar para o Rio Grande do Sul figurando como os primeiros estancieiros gaúchos. 
          Em 1732, foram concedidos os primeiros títulos de sesmarias. Este fato geralmente ocorria posteriormente à posse, porque o beneficiado já deveria, preliminarmente, estar estabelecido com criação de animais e lavouras. Nos requerimentos feitos nesta época pelos primeiros interessados em receber sesmarias, consta que suas famílias continuavam em Laguna mas já tinham povoado os campos de Tramandaí com gado vacum e cavalar. 
          Em 1733, os donos de invernadas procuraram legitimar suas posses transferindo residência com suas famílias para o Rio Grande do Sul. Muitos dos grandes fazendeiros eram inicialmente tropeiros que conduziam tropas para o centro do país. 
          Em junho de 1736, sai do Rio de Janeiro com uma frota de 200 homens o brigadeiro José da Silva Paes e aporta a 19 de fevereiro de 1737 na barra do Rio Grande. Funda a fortificação 'Jesus-Maria-José' para proporcionar apoio militar à Colônia do Sacramento. José da Silva Pais estabelece o projeto das linhas de defesa eassenhora-se da faixa de terras entre a barra do Rio Grande até o Chuí, onde vagavam mais de oitenta mil cabeças de gado de arribada. A troca de correspondência entre as autoridades demonstra o crescimento acelerado da povoação, que tirava sustento principalmente, do comércio de gado, animais de carga, couro, sebo e charque: "
          Cresce o povoado de Rio Grande com novas levas de povoadores que chegam do Rio de Janeiro, de Laguna em Santa Catharina e da Colônia do Sacramento. O chefe da Vila André, Ribeiro Coutinho, procura incrementar a incipiente indústria de carnes. Aos tropeiros que fazem pelas campanhas grandes arreadas de gado, paga para o consumo das tropas, 800 réis por cabeça de vaca. E a Manoel Gomes Pereira que estabeleceu uma xarqueada, compra por ordem de Silva Paes, toda a produção para munício da força. Como reserva imprescindível ao sustento do nascente povoamento havia-se fundado a Estância Real do Bojurú. Em 1738 contavam-se neste Estabelecimento que abrangia larga área de campos cerca de 1.500 éguas e 2.000 vacas que já estavam corridas, e mais de 8.000 outras em cujo total pretendido era de 45.000 reses. Era considerável a quantidade de couros que anualmente exportava o Bojurú, enchendo todas as embarcações que demandavam a barra do Rio Grande." 
          Cosme da Silveira foi o primeiro administrador de Bojurú, a primeira estância Real do Rio Grande do Sul.
 
 
Fonte: 1. Projeto Resgate. Manuscritos do Arquivo Histórico Ultramarino - RS. Documento 41.
        2. Oliveira, Sebastião Fonseca de. Aurorescer das Sesmarias Serranas. Edições EST, Porto Algre, 1996. p. 15-24.
           3. Pont, Raul. Campos Realengos, Vol I. EDIGAL, Porto Alegre, 1986. p. 39 e 211.

Estâncias do Rio Grande do Sul - 1734

          Transcrição da Carta dos oficiais da Câmara da vila de Laguna, ao capitão-mor da ilha de Santa Catarina, Francisco Dias de Melo, sobre a quantidade de cabeças de gado que possuem alguns moradores daquela vila, nas estâncias do Rio Grande de São Pedro. Este documento de 14.06.1734 apresenta o primeiro levantamento, conhecido até o presente momento, sobre os primeiros estancieiros do Rio Grande do Sul. As sesmarias começaram a ser concedidas em 1732, portanto, dois anos antes da carta abaixo transcrita. Alguns dos pioneiros citados, posteriormente receberam sesmarias após 1738. Os já moradores na região não foram arrolados no documento. Alguns dos pioneiros citados neste documento aparecem novamente no mapa das fazendas elaborado em 1741.


          Dos oficiais da Câmara desta Vida de Laguna, recebemos duas cartas de Vossa Exa a quatro de junho em uma delas vimos nos pedia informação dos campos de dentro correndo de Tramandi caminho do sudoeste entre o Rio Grande dando o comprimento e largura dos ditos campos e numero de gados e cavalhadas de que soubemos se alguém as possuia por carta de sesmaria de que não temos notícia que pessoa alguma as possua por sesmaria. E tomando-nos a individual informação na melhor forma que nos foi possível. Achamos ter de comprimento do dito Rio de Taramandi correndo entre o Rio Grande achamos ter vinte e duas léguas e três e quatro em partes de largo e isto é o que povoaram acham descobertos a que se chamam os campos do Viamão e estes vão correndo para as cabeceiras do dito Rio Grande em cujos campos estão as estâncias abaixo nomea das grandes (?);.

 João Rodrigues Prates
 tem 1200 cabeças de gado pouco mais ou menos, e decavalgaduras 200 pouco mais ou menos;.
 Manoel Correia Terra
tem 300 cabeças de gado e cavalgaduras 40 pouco mais ou menos.
 Jacomo da Silva
 100 cabeças de gado e cavalgaduras 6 pouco mais ou menos.
 João Braz
 tem 90 cabeças de gado e cavalgaduras 40 pouco mais ou menos.
 Joseph Pinto Bandeira
 tem 100 cabeças de gado e cavalgaduras 50 pouco mais oumenos.
 Antonio Cordeiro
 tem 100 cabeças de gado e cavalgaduras 40 pouco mais ou menos.
 Manoel Gonçalves da Costa
 (sargento mor de Curitiba) tem 30 cabeças de gado ecavalgaduras 60 pouco mais ou menos.
 Joseph Francisco
 tem 200 vacas e cavalgaduras 150 pouco mais ou menos.
O Cap Mor Francisco de Brito Peixoto
 tem 150 cabeças de gado e cavalgaduras 5 poucomais ou menos.
 João de Magalhães
 tem 100 rezes e cavalgaduras 40 pouco mais ou menos.
 Antonio Afonso (Vidal)
tem 100 cabeças de gado e cavalgadura 15 pouco mais ou menos.
 André dos Santos
 tem 30 cabeças de gado e de cavalgadura 10 pouco mais ou menos.
 Reverendo Pe. Joseph dos Reis
 tem 300 cabeças de gado e cavalgaduras 150 pouco maisou menos.
 Manoel Gonçalves Ribeiro
 tem 150 cabeças de gado e cavalgaduras 130 pouco mais oumenos.
 Joseph Pereira Monteiro
 tem 60 vacas e cavalgaduras 100 pouco mais ou menos
 Manoel Ferreira Diniz
 tem 60 cabeças de gado e cavalgaduras 50 pouco mais ou menos.
 Sebastião de Brito
 tem 60 cabeças de gado e cavalgaduras 50 pouco mais ou menos.
 Domingos Leite (Avelar)
 tem 80 vacas e cavalgaduras 50 pouco mais ou menos.
Sebastião Francisco
 tem 100 cabeças de gado e cavalgaduras 30 pouco mais ou menos.
Carlos Pereira Machado
 tem 50 cabeças de gado e cavalgaduras 80 pouco mais oumenos.
Sebastião Rodrigues (Chaves)
 tem cavalgaduras 80 pouco mais ou menos.
 Manoel Rodrigues (Monteiro)
 tem 50 cavalgaduras de vários fronteiros que foram para São Paulo;.
Simão dos Santos
tem 60 vacas e cavalgaduras 50 pouco mais ou menos.
 Antonio Lopes (Cardoso)
 tem 60 vacas e cavalgaduras 80 pouco mais ou menos.
 Joseph Barbosa
 tem 50 cavalgaduras pouco mais ou menos. E o dito campo chamado Taramandi correndo caminho do sudoeste entre o porto do Rio Grande entre a costa do mesmo Rio e o mar grosso achamos ter quarenta léguas e de largura em partes légua e meia e duas entre três em cujos campos está o gado de que se fez
  
em nome de sua Mgde que Deus o guarde, adonde está misturado alguns gado marcado de vários moradores desta vila de Laguna até o dito porto do Rio Grande achamos ter setenta léguas pouco mais ou menos do dito porto do Rio Grande. Entre a Nova Colônia dizem tercem léguas pouco mais ou menos. E damos a Vsa Excia. Em como estas estâncias todas; haverá dois anos que se tem povoado pouco mais ou menos..... de que ...se nós oficiais de dar a V.Ex..... a cuja vida que Deus gde m. anos. 

          Laguna 14 de Junho de 1734

.............Excia, Menores Servos

          [assinam]

João Rodrigues Prates
Miguel da Silva 
Manoel Correia Terra





Fonte: Projeto Resgate de Documentação Histórica - Barão do Rio Branco. Documentos manuscritos avulsos da Capitania de Santa Catarina (1717-1827). Documento 6, (mídia: CD, acervo particular). / Mauro Esteves

15 de abril de 2019

Técnicas de Pesquisa: Determinação de Datas Aproximadas para Nascimentos e Casamentos nos Séculos XVII E XVIII

          A determinação de um período para busca de um documento é de importância crucial em genealogia. Por exemplo–: Entre que datas procurar um registro de casamento?

          Existem várias combinações de dados que poderão indicar períodos óbvios de busca de documentos nos arquivos, como a vinculação a algum fato político do qual se sabe que o indivíduo pesquisado participou. Alguém que tenha participado de uma guerra, será obviamente pesquisado no período dessa guerra, ampliado para cobrir a idade mínima e máxima da vida militar. Porém, quando nada existe que permita essa definição segura de um período de busca, há que recorrer a certas conjecturas.
          Para calcular um período de busca são importantes fatores de época como período médio de vida, idade normal para ingresso nas escolas, para o casamento, o período de fertilidade do casal, e outros eventualmente aplicáveis. Em nossas pesquisas conseguimos alguns resultados na escolha de períodos para a pesquisa seguindo o método abaixo. Os exemplos são baseados em registros religiosos de Almada e Caparica, encontrados no Arquivo Distrital de Setúbal, Portugal, datados dos séculos XVII e XVIII.

FATORES:

  1. Nascimento, deduzido da data conhecida do casamento de mulher: No caso de primeiro casamento, a data do nascimento deve estar entre -15 e -20 anos; um segundo casamento entre -20 a -35. O nascimento de um homem, entre -20 a -25 da data conhecida do primeiro casamento; ou -25 a -50 do segundo casamento.
  2. Período de fertilidade. O período de fertilidade de um homem, na época era relativamente longo. Porém, na mulher, devido a problemas de saúde decorrentes de muitas gestações e partos (10 a 15) e à precariedade da medicina na época, o período de fertilidade, dentro do casamento, calculamos que ficasse reduzido a cerca de 20 anos, mesmo que ela se casasse muito jovem.
  3. A expectativa de vida (não a duração média) era tão incerta em todos os países que este é um fator praticamente inaplicável nos cálculos de longevidade para determinação de óbito, a partir de datas de nascimento, ou de casamento. No período considerado, em Portugal, uma boa parte da população atingia os 60 anos, mas a média, puxada para baixo devido a alta mortalidade infantil, não passaria dos 40 anos..
  4. Patentes militares. Estas eram conferidas conforme a três variáveis, o que torna difícil sua utilização na procura de períodos relativos a nascimentos, casamentos e óbitos. Variavam quanto à idade, quanto à fortuna e quanto ao prestígio do titular. Porém, de um modo geral, um Sargento-mor era mais rico, mais velho, e mais influente que um homem que ostentasse a patente de Capitão., e este seria pelo menos mais velho que um Alferes. As idades prováveis seriam 45 a 50, 30 a 40, e 20 a 30 anos, respectivamente.


I. Data do casamento dos pais a partir da data do nascimento de um filho

          Os fatores acima ajudam a encontrar o período (não a data exata) mais provável em que estaria o registro de casamento dos pais, a partir da data conhecida de nascimento de um filho, nos séculos XVII e XVIII..
          O ano mais próximo seria o do próprio nascimento do filho considerado. O ano mais distante do período seria determinado pela subtração do dos anos de fertilidade da mãe, que estimamos em 20 anos..
Exemplo: Os filhos de Catarina e Simão da Mota nasceram Tereza em 1665; Micaela em 1665; Catarina em 1666, Violante em 1667, Arcângela em 1671, Maria em 1673, Natália em 1679; Luísa em 1681; Joana em 1684 = 19 anos de fertilidade.
          Supomos que apenas o registro de Arcângela, nascida em 1671, fosse conhecido. Teríamos como período provável do casamento de seus pais os anos entre 1671 em que ela nasce, e 1671 - 20 anos em que também poderia ter ocorrido seu nascimento, chegando o limite a  1651.
          No caso deste exemplo, considerando cada data de nascimento como o limite mais próximo, e subtraindo-se os anos de fertilidade da mulher da data de nascimento de cada filho, teríamos os seguintes períodos prováveis para procurar a data do casamento de Simão da Mota e Catarina:


          Catarina e Simão da Mota se casaram em 1664. O resultado do cálculo do período para seu casamento a partir da data de nascimento de qualquer dos filhos do casal que fosse o único conhecido (não se encontrando os registros dos demais), teria o ano de 1664 incluído, como mostra o quadro acima.

II. Período para o casamento dos pais a partir da data do casamento de um filho ou filha

          Não havendo no registro do casamento de um filho ou filha a idade do noivo ou da noiva, o primeiro passo é encontrar o período provável em que cairá a data de  nascimento de um deles, ou seja, levamos em conta o fator n.1 acima, para um primeiro casamento,. Encontrado o período provável do nascimento, temos dois extremos separados por 5 anos. Então aplicamos o mesmo cálculo do exemplo I (ou seja, encontrar uma data de casamento a partir da data de nascimento de um filho), separadamente a cada uma das duas datas extremas do período determinado para nascimento do cônjuge considerado (o filho ou a filha) Os dois resultados indicarão os dois extremos prováveis do período em que os pais se casaram. 

          Exemplo: Domingos, filho de Natália de Jesus, casou em 1734 com Paula Maria, primeiro casamento. Recuando respectivamente -20 e -25, para Domingos, seu nascimento estaria entre 1709 e 1714. Pela primeira data, o casamento de seu pai com Natália estaria entre 1709 e (1709-20 (anos férteis) = 1689 e ; pela segunda data o casamento estaria entre 1714 e  (1714-20 =) 1694. Período para busca, 25 anos, de 1689 a 1714: De fato, encontramos o casamento de sua mãe Natália de Jesus com seu pai Domingos Rodrigues, em 1703.

Texto: Rubem Queiroz Cobra

Técnicas de Leitura: Nomes e Abreviaturas em Documentos dos Séculos XVII e XVIII

Nomes
          Repetiam-se grandemente os nomes, ocorriam também muitos casamentos na mesma família, inclusive tios com sobrinhas ou tias com sobrinhos. Torna-se importante qualquer dado extra que possa ajudar a identificar a pessoa, e que acompanha o seu nome. Por esse motivo, na identidade de um indivíduo é importante levar em conta alguns elementos acessórios como:
  1. O nome de sua mulher. Mas aqui também não se pode confiar integralmente, pois era frequente casarem-se as pessoas duas vezes, devido ao alto índice de viuvez.
  2. Tão importante ou talvez mais importante que a vinculação ao nome de uma mulher, é o nome do lugar onde o indivíduo vivia ou de onde ele era natural. Hoje, devido à facilidade de movimentação de indivíduos e famílias, esse dado parece irrelevante para identidade, e o pesquisador tende a não lhe dar a importância que tinha em épocas antigas. Desde a antiguidade, o local de nascimento ou moradia da pessoa era com frequência agregado ao nome do indivíduo, para identificá-lo entre outros de mesmo nome. Assim, "Domingos Pereira, morador na Sobreda", vale para toda a vida desse Domingos, uma vez que provavelmente viverá sempre naquela localidade e assim se distinguirá de muitos outros Domingos Pereira. Muitos nomes de lugares incorporaram-se assim ao nome de família dos indivíduos. Esse costume passa da idade média à idade moderna, e vai praticamente desaparecer na época contemporânea.
  3. A crença de que alcunhas tenham se tornado nomes de família não parece corresponder à verdade. As alcunhas eram indicadas muito distintamente, e serviam como identificador quando havia muitos nomes iguais no mesmo lugar. Pelo menos nos documentos das Igrejas da Vila de Almada, as alcunhas eram sempre indicadas com muita clareza e não acompanhavam os nomes de filhos e netos. Assim Diogo da Costa, o Camílio, Antônio Vaz, o bengala, etc.

Mudança de  Nomes
          Abandono de um nome da linha paterna por um nome da linha materna pode ocorrer, e isto foi comum em Portugal, à época do domínio espanhol, quando o último sobrenome era o da mãe, e o sobrenome do meio é que era do pai. Erros e má interpretação de funcionários e escrivães também levam à alteração de sobrenomes, como é o caso de uma família italiana que veio de Gênova para o Brasil e cujo sobrenome era Covre; por descuido do funcionário que lhes emitiu documentos brasileiros, teve o sobrenome alterado para Cobra (Os Cobra de Piracicaba, S.P.).
          Quando os judeus foram obrigados a adotar a religião católica, desapareceram os Isaac, Jacob, Judas, Salomão, Levi, Abeacar, Benefaçam, etc., e ficaram somente nomes e sobrenomes cristãos. Tomaram nomes vulgares, sem nada que os diferenciasse da maioria dos cristãos velhos, a não ser por vezes a manutenção de algum sobrenome antigo judaico pelo qual o indivíduo era vulgarmente conhecido. Assim aconteceu com Jorge Fernandes Bixorda, Afonso Lopes Sampaio, Henrique Fernandes Abravanel, Duarte Fernandes Palaçano, Duarte Rodrigues Zaboca, etc.
          É, portanto, falsa a idéia de que os cristãos novos usavam nomes de árvores como Nogueira, Pereira, Pinheiro Carvalho, etc., para distinguir-se. Estes já eram sobrenomes existentes e pertencentes a própria nobreza de épocas anteriores.

Abreviaturas
          A leitura da documentação antiga é tarefa um tanto difícil para o iniciante mas, após algum esforço, vai se tornando cada vez mais fácil. Existem umas poucas regras que facilitam muito a leitura dos documentos mais difíceis. É imprescindível também conhecer de antemão as formas de abreviatura comuns em cada época. São abreviados não somente palavras nos textos do documento como também os nomes das pessoas. Existem livros inteiramente dedicados a este problema.
          Alguns nomes e sobrenomes passaram a existir a partir de abreviaturas como por exemplo "Roiz", abreviatura de Rodrigues; Brites, abreviatura de Beatriz; Alves, provável abreviatura de Alvarez, etc.
          Os sobrenomes eram frequentemente escritos com a inicial minúscula: oliveira, pereira, etc.
Aqui vão alguns exemplos de abreviaturas extraídas de documentos dos séculos XVII e XVIII:

7bro = setembro
8bro = outubro
Alz' = Alvares
Ant.o = Antônio
Ant.o lopes das neves = Antônio Lopes das Neves.
Azd.o 
C.na = Catarina
D.a = Dona
d.a V.a = dita Vila
Dis = Dias
Diz e Diz (com til sobre o i) = Diniz
d.o, d.a = Dito, dita
D.os dias = Domingos Dias 
D.os, D.as = Domingos, Domingas
D.tor = Doutor 
de prez.te = presentemente
delegc.as = diligências
delig.as = diligências
E. R. M.ce = espera receberá mercê
Evang.os =Evangelhos
f.o, f.a = filho, filha
feu.ro, feur.o, Feu.ro = fevereiro
Fon.ca = Fonseca
Fran.co, fran.co, Franc.o, Fr.co, fr.co; Fr.ca = Francisco, Francisca
freg.a ou fg.a = Freguesia
Frr.a, frr.a, Fer.a = Ferreira
Frz', ou frz' = Fernandes
Glz' ou glz' = Gonçalves
Im.o = Jerônimo
impedim.to- = impedimento
in facie ecctiae = in facie ecclesiae
Jan.ro, Janrr.o, Jan.r = janeiro
Jhs'., ihus'., Jhus. = Jesus
Joph. = Joseph ou José
Lxa ou Lixa = Lisboa
l.o., ou legit.o, legit.a, legt.a, leg.ta, leg.ma = legítimo, legítima
M.a = Maria
M.a dias = Maria Dias
Mz = Munis ou Martins
M.el = Manuel
m.or, m.ora = morador, moradora
minha lç.a = minha licença
miz.a = Misericórdia
Mnz . = Martins
Montr.o, montr.o = Monteiro
Mrc.o = Março
N. Sr.a 
n.al = natural
n.al da V.a = natural da vila
Nascidos de hum ventre = filhos gêmeos
nessec.o = necessário
9bro, Nov.bro = novembro
P. C. = passar carta, dar autorização 
p.a = para
P.e = Padre
P.o = Pedro ou Pero
prez.tes = presentes
Prr.a,prr.a, Per.a = Pereira
q' = que
q' Ds'. guarde como des.o. = que Deus o guarde como desejo
ribr.o = Ribeiro
Roiz = Rodrigues
Ryo de Janr.o = Rio de Janeiro 
S.er = Senhor
Sagr. Con. trid. e Const.oe(n)s deste Arc. = Sagrado Concílio Tridentino e Constituições deste Arcebispado
SMq'Ds'., SMDs'. = Sua Magestade que Deus guarde
Snra. = Senhora
Supp.te, supp.te = suplicante 
Teix.ra., teix.ra., teixr.a = Teixeira
test.as ou t.as = testemunhas
V. Ill.ma e R.ma = Vossa Ilustríssima e Reverendíssima 
V.a = Vila 
VM, Vm.ce = Você, o Senhor, a Senhora
X = Cris (como em Cristo)
X.er = Xavier

(A melhor fonte para socorro do leitor de documentos da nossa história colonial talvez seja ainda o Elucidário das Palavras e Termos e Frases que em Portugal Antigamente se Usaram e que Hoje Regularmente se Ignoram: Obra Indispensável para Entender sem Erro os Documentos Mais Raros e Preciosos que Entre Nós se Conservam. Esta obra de tão extenso título, de autoria do frade franciscano Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, veio a público em Portugal em 1798 e 1799, mas foi reeditada, sendo de 1962 a "edição crítica", por Mário Fiuza (Livraria Civilização Porto-Lisboa) a mais facilmente encontrável. Existe um exemplar na Biblioteca Nacional de Portugal - BNP.
Cappeli, Adriano - Lexicon Abbreviaturarum. 1912.
Bacellar, Bernardo de Lima e Melo - Dicionário. 1782.
Bluteau, Raphael - Vocabulário. 1727.
Câmara, Paulo Perestello da - Dicionário. 1850.
Mascarenhas, Joaquim Augusto d'Oliveira- Novíssimo Dicionário Archeológico Histórico.)

Procedimento para leitura de textos antigos
          Por mais difícil que seja a leitura de um texto antigo, ela não é impossível se forem utilizadas certas técnicas:
  1. Transcrever, na ordem em que aparecem no texto, as palavras facilmente reconhecíveis.
  2. Identificar o formato das letras como o copista as escreve, observando a inclinação que ele dá, como fecha as letras redondas, como prolonga a haste das consoantes como d, t, h, etc.
  3. Aplicar o desenho de cada letra, nas palavras parcialmente legíveis procurando completá-las.
  4. O sentido que se pode dar à frase é também um recurso para desvendar um texto pouco legível, porém é traiçoeiro.
  5. Conhecer o jargão próprio, por exemplo, o jargão cartorial, a partir de um documento legível da mesma época (outros documentos constantes do mesmo códice ou processo, ou se isto não for possível, procurando um documento do mesmo tipo, da época mais próxima que conseguir). Geralmente o jargão permanece através dos séculos. Por exemplo: E. R. M. = "Espera Receberá Mercê".
  6. Nunca procure completar uma palavra escrevendo sobre o original, mesmo que usando grafite. Para isso faça uma cópia xérox do documento, ou fotografia, se for possível, ou simplesmente o copie a mão, de modo que possa fazer os ensaios de interpretação das letras e textos sem danificar o documento.
  7. A posição da luz pode dar uma ajuda extraordinária. Por isso é bom ter uma luminária móvel pequena, que possa ser colocada em várias posições sobre o documento para iluminação direta ou oblíqua, no ângulo que for mais favorável.
  8. Outro equipamento indispensável é a lente. As lentes maiores e de menor poder de ampliação ajudam na visão mais ampla de um texto a ser interpretado. Porém a lente pequena e de mais poder é também muito útil quando se deseja examinar vestígios de volteios de uma letra, para identificá-la.

Texto: Rubem Queiroz Cobra

Abreviaturas

          Talvez por se verem assoberbados, talvez por comodidade, certamente por costume, os párocos usavam muitas abreviaturas no registro dos assentos de batismo, casamento e óbito. A quantidade de abreviaturas variava bastante, e dentro de um mesmo livro de registros é possível encontrar textos perfeitamente compreensíveis e outros que demandam algum tempo para serem decifrados.

          No caso que apresento abaixo, decodifiquei as abreviaturas do assento de casamento de um antepassado meu – além de atualizar a grafia das palavras. Isso facilita a consulta posterior sem necessidade de recurso à imagem do registro original.

Assento de Casamento de Pedro José Pinto e Josefa Luiza Costa – 15/05/1791 – Viseu, Portugal
Transcrição:

          Aos 15 dias do mês de maio do ano de 1791, neste colegiado da vila de Barcos, se receberam em face da [Igrª = igreja], na presença das testemunhas ao diante nomeadas, na forma do concílio trid[entino] e [constam. = constituição] deste bispado, Pedro José [Pto. = Pinto], natural da freguesia de [S. Jo. = São João] de Tarouca, e Josefa Luiza Costa, filha legítima de José da Costa Prata e Joanna [Roiz = Rodrigues], ambos naturais desta [fregª = freguesia] e aquele filho de Francisco Xavier, também natural desta [fregª = freguesia], e Maria Joaquina, natural de Tarouca. Este é o [primrº = primeiro] matrimônio da parte de ambos, os quais dispensaram em segundo grau de consanguinidade. Foram testemunhas André de Macedo, sua mulher Rosa de Macedo, Manoel de Araújo e outras muitas mais pessoas, homens e mulheres. [Pª = Para] constar fiz este termo de assento que assinei com as [testem. = testemunhas]. Mathias [pároco] [Pe. = Padre] José de Amaral [] nesta colegiada. Dia, mês e ano ut supra.

          A lista abaixo, adaptada da obra de Queiroz e Moscatel, apresenta algumas abreviaturas de nomes e sobrenomes (ou apelidos, como se diz em Portugal), que estão entre as informações mais preciosas para a pesquisa genealógica:

Abreviação                    Forma Extensa
Afo ou Ao                   Afonso
Ago                                   Agostinho
Almda                           Almeida
Alvo                              Álvaro
Alz                                   Álvares ou Alves
Amal                           Amaral
Andre                           Andrade
Antes                           Antunes
Anto                                   Antônio
Aro                                   Araújo
Azdo                           Azevedo
Bar                                   Baltazar
Bdo                                   Bernardo
Bmeu                           Bartolomeu
Bor                                   Belchior
Bto                                   Bento
Bza                                   Barboza
Bapta                           Baptista
Boto                                   Botelho
Cna                                   Catarina
Cta                                   Costa
Caeto                           Caetano
Carvo                           Carvalho
Conçam                           Conceição
Couto                           Coutinho
Do                                   Diogo
Des ou Dez                   Domingues
Dos                                   Domingos
Espo ou Espto Sto           Espírito Santo
Fa                                   Faria
Ferndo                           Fernando
Ferra                           Ferreira
Figdo                           Figueiredo
Fonca                           Fonseca
Frco ou Franco                   Francisco
Frz                                   Fernandes
Gaes                                   Guimarães
Gar                                   Gaspar
Go                                   Gonçalo
Glz                                   Gonçalves
Grego                           Gregório
He                                   Henrique
Igno                                   Inácio
Je                                   José
Jo                                   João
Jmo                                   Jerônimo
Joaqm ou Jqm                   Joaquim
Lço                                   Lourenço
Ma                                   Maria
Mça                                   Mendonça
Mda                                   Margarida
Mdes                           Mendes
Mel                                   Manuel
Mna                                   Mariana
Magaes                           Magalhães
Magda                           Madalena
Marto                           Martinho
Mascas                           Mascarenhas
Menes                           Meneses
Mesqa                           Mesquita
Miz                                   Martins
Mora                           Moreira
Nes                                   Nunes
No                                   Nuno
Nogra                           Nogueira
Nora                                  Noronha
Olivra                           Oliveira
Pa ou Pra                           Pereira
Po                                   Pedro
Pto                                   Pinto
Pimel                           Pimentel
Pimta                           Pimenta
Pinro                                  Pinheiro
Qos                                   Queirós
Ro                                   Rodrigo ou Rosário
Ribo                                   Ribeiro
Roiz                                   Rodrigues
Sa                                      Silva
Sebam                           Sebastião
Seqra                           Sequeira
Sza                                   Sousa
Teixa                           Teixeira
Vco                                   Vasco
Vascos                           Vasconcelos
Vra                                   Vieira
Vte                                   Vicente ou Violante
Xer                                   Xavier
Xpvam                           Cristóvão